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14.2.09

Qué qui móia?





















Pouco depois de acabado o jantar, uma polêmica estava instalada lá em minha casa! Aliás, nenhum caso que justifique uma CPI, mas que vale o registro, pelo inusitado, isso vale. Foi mais ou menos assim: Minha filha esperou eu dar a última garfada e informou “pai, a mãe não quer dar dinheiro pra eu cortar o cabelo!”, ao que logo foi replicada pela outra parte com uma frase curta e incisiva: “então explica o porquê!”

Enxuguei a boca no guardanapo e, antes de iniciar a minha participação no caso, dei uma espiada na manchete do Jornal Nacional que alertava sobre a grande incidência de fugas nas cadeias e distritos. Fim de ano, já sabe! Todo mundo querendo passar o Natal e o Ano Novo com a família, renovando votos de paz e alegria, sabe como é...

“Ouviu pai?” Eu não tinha ouvido. Mas, prontamente, veio tréplica do outro lado: “Você ainda não explicou, como é que ele vai ouvir?” Em resumo, fiquei sem saber quantos foram os presos que resolveram ter um feliz natal e um próspero ano novo, e sem entender o motivo das vozes alteradas ao meu lado. E já que eu havia perdido o melhor da história, ou o pior, quem sabe, dei finalmente o ar de minha graça na discórdia familiar recém-instalada: “Dinheiro pra explicar o quê, se é que é de minha conta?”

Mãe e filha quase tomaram como ríspida a minha distraída intervenção, mas precisando justificar a posição que assumiam na contenda deixaram de lado qualquer manifestação nesse sentido e partiram para a própria defesa. “Deixa que eu explico, mãe! Ô pai, a mãe disse que não vai dar dinheiro pra eu cortar o cabelo...”

Olhei para os cabelos, alí pela nuca, da minha filha, e achei que não estavam precisando nada mais que um bom pente. Meditei sobre a reivindicação. Com as mãos na cintura, minha mulher esperava, pacientemente, que eu me pronunciasse, ou que minha filha terminasse a “acusação”. Como a acusação parou na primeira frase impetuosa, e como eu continuasse meditando, veio a réplica: “Ela sabe explicar o que eu disse! Pergunta pra ela!”

Eu estava meio sem ação, como juiz que não leu o processo e precisa julgar... Estava com um olho na televisão e outro na discussão, que nem era assim tão acirrada pra que fosse chamada de discussão. Não me manifestei, e aguardei que as partes se posicionassem melhor. Como sempre, foi minha filha que tomou a iniciativa e logo complementou a sua acusação:

“Ela não quer me dar dinheiro, porque quer me mandar lá no qué qui móia pra cortar o cabelo!” Êpa, eu pensei! “É nada! Ela quer gastar mais que a conta!” Êpa! eu pensei de novo... “É nada, pai! Você já foi lá no qué qui móia, pra ver como é que é?” Êpa, êpa, êpa! Que história é essa? Saí da sintonia da televisão e entrei na euforia da discussão, mais por susto do que por interesse.

Então eu fiquei sabendo. Foi um alívio, pois a princípio pensei que minha mulher tivesse enlouquecido e estivesse querendo levar minha filha para algum lugar esquisito. Mas... Ufa! Não era nada disso...

Sabem os senhores, que cortar o cabelo não é mais só uma simples necessidade estética dos tempos de verão, ou de manter um mínimo de asseio, mas muito mais uma questão de seguir a moda! Haja vista, o número de filiais que essas grifes orientais de “hair coifeures” já abriram por aí afora... E por outro lado, há de se notar o incomensurável número de “salões” especializados que proliferam em progressão geométrica, e nem só pela periferia, como gostariam os mais grã-finos. Vocês sabem também, que gente desempregada faz qualquer coisa pra sobreviver: uma tesoura, um espelho e meia dúzia de cadeiras, não custam quase nada na garagem de um desempregado.

Daí o pomo da discórdia lá em casa... Nem se tratava de “cortar ou não cortar, eis a questão!”, mas de onde cortar. Qué qui móia, fiquei eu sabendo, depois de muita explicação e justificativa, é o salão anônimo daquele que cobra quatro ou cinco reais por um belo talho na juba. Antes de por você sentado na cadeira eles perguntam: “Qué qui móia?” Se você disser sim, entra numa mini-ducha morna, com um pouco de shampoo. Se disser não, vai direto para o que o tec-tec da tesoura do profissional determinar para a sua cabeça e para o seu visual de verão.

Pois bem! Tomei pé da situação, pensei um pouco, e ponderei: vinte ou trinta paus no oriental com ora marcada é bem diferente do que quatro ou cinco no qué qui móia, por mais que o resultado final faça diferença. Ponderei também um agravante, acrescentado pela promotoria na última hora: “Olha, ela quer que passe a máquina e deixe raspado perto da nuca! Acha que é bonito?” Ponderei mais um pouco...

Afinal, que diferença faria o look da moda? Cada um está fazendo o que quer com a cabeça! Cortam, picotam, pintam e bordam! E minha filha precisaria entender isso! O qué qui móia pode ser uma ótima alternativa! Pelo menos quinze reais de economia! Porém, muito menos do que a sociedade economizará com os presos fugidos das cadeias, certamente!

Com isso tudo, me lembrei de meu tempo... Minha mãe pagava o seu Agenor antecipadamente e ia pra feira. E eu me sentava na cadeira de espera, vendo as revistas velhas, esperando minha vez... O seu Agenor, que tinha as bochechas gordas e vermelhas feito as do Papai-Noel, punha panos na cara dos homens, abria e fechava suas mãos fazendo funcionar a velha maquininha manual, e quase invariavelmente, ao final de cada corte ou barba feitas, perguntava: “Vai árco, tárco ou vérva?"

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Premio Flerts Nebó de Melhor Conto 2000/2001
Publicado na III Antologia Paulista (2001) e IV Antologia Paulista (2003)

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Um comentário:

Simone disse...

Prezado Marcos, boa noite!!! Depois de mais um dia arrebatada por paredes frias de um escritório, onde impera o jogo de vaidades e competições imbecis, fui agraciada por este conto singelo, mágico e, porque não dizer, hilário. Afinal de contas, ri tanto, que quase me "moiei"... Grande abraço!

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